Da lei NIS2 ao ransomware em massa: o desafio da segurança cibernética na Espanha e na América Latina

26 de agosto de 2026
Da lei NIS2 aos ataques em massa de ransomware: o desafio da segurança cibernética na Espanha e na América Latina

Falar de segurança cibernética já não é falar de uma ameaça distante nem de uma obrigação futura. Na Espanha, a entrada em vigor da NIS2 transformou a conformidade regulatória em uma data específica no calendário. Na América Latina, o problema tem outro lado: a região se tornou o principal alvo mundial de ransomware. Duas realidades diferentes, unidas por uma mesma conclusão: sem visibilidade sobre os ativos de TI, não dá pra se defender nem cumprir as normas.

Espanha: O NIS2 deixa de ser uma proposta para se tornar lei

Por quase dois anos, a NIS2 ficou na Espanha como uma diretiva “a ser transposta”. Isso mudou em abril de 2026, quando entrou em vigor o Decreto Real que conclui a transposição para o ordenamento jurídico espanhol. As entidades essenciais e importantes têm agora um prazo máximo de nove meses para se adaptarem totalmente.

Os dados mostram por que isso é urgente. O balanço de segurança cibernética do INCIBE, publicado em fevereiro de 2026, registrou 122.223 incidentes atendidos em 2025, um aumento de 26% em relação ao ano anterior:

  • 55.411 incidentes de malware, a categoria mais comum.
  • 45.445 casos de fraude online, 19% a mais do que em 2024.
  • 25.133 casos de phishing, o vetor de ataque mais comum.
  • 392 ataques de ransomware, com um custo médio entre 80.000 e 150.000 euros por incidente em uma empresa de médio porte espanhola.
  • 237.028 sistemas vulneráveis detectados e notificados de forma proativa pelo INCIBE-CERT.

Entre os operadores essenciais e importantes regulados pela NIS2, o INCIBE lidou com 401 incidentes em 2025, sendo que o setor bancário concentrou 34% dos ataques, seguido pelo transporte (14%) e pela energia (8%).

O regime de sanções previsto é um dos mais severos do quadro regulatório europeu: até 10 milhões de euros ou 2% do faturamento global anual para entidades essenciais, e até 7 milhões ou 1,4% para entidades importantes, com responsabilidade pessoal dos órgãos de direção em caso de negligência grave. O alcance também é amplo: estima-se que a NIS2 afete diretamente cerca de 5.760 entidades na Espanha, distribuídas por 18 setores, e com um limite mínimo relativamente baixo (mais de 50 funcionários ou mais de 10 milhões de euros de faturamento em setores regulamentados).

América Latina: a região que lidera o ranking mundial de ransomware

Enquanto a Espanha organiza seu marco regulatório, a América Latina enfrenta um problema de outra magnitude: segundo o relatório “State of Ransomware 2026” da Kaspersky, a região se consolidou em 2025 como a mais afetada por ransomware do mundo, com 8,13% das organizações latino-americanas sendo vítimas desse tipo de ataque, à frente da Ásia-Pacífico (8%), África (7,62%) e Europa (3,82%).

Outros dados confirmam a gravidade do problema:

  • Os ataques de ransomware na região aumentaram 78% em apenas um ano, passando de mais de 250 em 2024 para mais de 450 em 2025, de acordo com o relatório “Latin America Cyber Threat Landscape” da Intel 471. O número de variantes ativas quase dobrou, passando de 48 para 79.
  • A Check Point Research estimou que as organizações latino-americanas sofrerão, em média, mais de 3.000 ataques cibernéticos por semana ao longo de 2026, um número bem acima da média mundial.
  • No primeiro semestre de 2026, o Brasil registrou mais de 100 vítimas de ransomware, o México cerca de 80, a Argentina 39 e a Colômbia 33, segundo dados coletados pela ESET com base no site ransomware.live.
  • Só no México, foram registrados mais de 237 mil tentativas de ransomware em doze meses, segundo a Kaspersky, o que equivale a mais de 19 mil tentativas por mês.

O Brasil concentra cerca de 30% de todas as vítimas da região, sendo que os setores de bens de consumo, energia, agricultura e serviços profissionais estão entre os mais afetados.

Duas realidades, uma mesma origem: não dá pra proteger o que a gente não vê

Na Espanha, o desafio é comprovar a conformidade perante um órgão regulador, com prazos e penalidades específicas. Na América Latina, o desafio é conter uma onda de ataques que cresce a um ritmo bem acima da média global. Mas, nos dois casos, a resposta começa no mesmo ponto: saber exatamente quais ativos de hardware e software uma organização tem em uso, quem os usa e qual é o nível de risco que cada um representa.

Sem um inventário de ativos atualizado e confiável, nenhuma organização consegue avaliar o risco da sua cadeia de suprimentos, notificar um incidente dentro dos prazos exigidos pela NIS2 nem identificar rapidamente quais sistemas estão vulneráveis diante de uma onda de ransomware. A gestão de ativos de TI (ITAM) não é apenas um requisito administrativo secundário: é a base de dados sobre a qual se sustenta qualquer estratégia de segurança cibernética, seja para cumprir as exigências de um órgão regulador europeu, seja para resistir à pressão das ameaças que hoje fazem da América Latina o epicentro mundial do ransomware.

 

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Fontes dos dados: INCIBE (Balanço de Cibersegurança 2025), Kaspersky (State of Ransomware 2026), Intel 471 (Latin America Cyber Threat Landscape, janeiro de 2026), Check Point Research e ESET/ransomware.live (primeiro semestre de 2026).

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